por Paulo Lana e Francisco Faraco

Os manguezais têm um papel fundamental na estabilização e proteção dos ambientes costeiros, prevenindo a erosão e representando uma barreira protetora em caso de tempestades, que se tornarão mais freqüentes ou imprevisíveis com as projetadas mudanças climáticas globais. A importância destes ambientes para o equilíbrio das populações animais costeiras e marinhas é inquestionável, desempenhando função importante para a recuperação e manutenção dos estoques pesqueiros. Diversos produtos dos manguezais são explorados pelas comunidades costeiras, como a madeira (utilizada para combustível e construção), taninos e outros extratos vegetais (Walters et al. 2008).

Os manguezais podem ser utilizados como instrumento de avaliação da elevação do nível dos oceanos, sendo possível até que a área ocupada por esses ambientes aumente à medida que a água salgada penetre cada vez mais nos rios e estuários. Um aumento na temperatura atmosférica também pode “beneficiar” os manguezais, que geralmente têm sua distribuição limitada pelas temperaturas mínimas e pela ocorrência de geadas. Disso pode resultar uma expansão deste ecossistema para latitudes maiores, além de alterações em padrões fenológicos e na produtividade dos bosques, desde que limites superiores de tolerância das espécies não sejam ultrapassados (Gilman et al. 2008). Outros efeitos das mudanças climáticas também possuem um potencial de impactar os manguezais, tais como: (i) alterações nos padrões de precipitação e descarga de água doce, nutrientes e sedimentos, (ii) aumento na temperatura superficial do mar, (iii) alterações nos padrões de circulação e (iv) elevação dos níveis de CO2 atmosférico. No entanto, os efeitos destas alterações são mais incertos (SCAVIA et al. 2002).

As mudanças previstas para o clima e nível dos oceanos poderão alterar a distribuição, a composição e a produtividade das distintas formações costeiras. Se as espécies serão capazes de adaptar-se às novas condições na mesma velocidade destas mudanças é, portanto, a questão relevante. No caso dos manguezais, sua sobrevivência depende da habilidade em acrescer solo ou migrar em direção ao continente acompanhando a elevação do nível do mar. A acreção (acúmulo de material) é limitada pela disponibilidade de sedimentos, enquanto a migração e a colonização de novas áreas são limitadas pela ocupação humana das áreas adjacentes (Scavia et al. 2002). Os poucos estudos existentes neste assunto não são conclusivos (Alongi, 2007), havendo a necessidade de observações de longo prazo e em um maior número de locais. Os bosques menos vulneráveis a elevação do nível do mar são aqueles situados em áreas com grande amplitude de maré (> 5m), em costas tropicais úmidas e/ou em áreas adjacentes à desembocadura de grandes rios, e em áreas remotas e com pouca ocupação humana (e.g. Região Norte do Brasil). Os mais vulneráveis seriam aqueles situados em pequenas ilhas, sobre solos calcários, em locais com ausência de rios e em regiões áridas.
Além destas características, as taxas atuais de desmatamento e a existência de reservas marinhas são fatores importantes na avaliação da vulnerabilidade destes ambientes. De acordo com os estudos de Alongi (2007), a perda de manguezais devido às mudanças climáticas estaria entre 10-15% até 2100, valor bem abaixo do previsto no último relatório do IPCC (Solomon et al. 2007). Portanto, o impacto do desmatamento (ritmo atual de 1-2% de perda anual) parece ser uma ameaça maior ao futuro dos manguezais do que as mudanças climáticas. Por sua vez, esta perda por desmatamento pode contribuir para o aumento do CO2 atmosférico, potencialmente intensificando as mudanças climáticas. Estima-se que cerca de 35% dos manguezais do mundo foram perdidos nos últimos 50 anos, resultando numa liberação líquida na atmosfera de pelo menos 3,8 x 1014 gC (Cebrian, 2002).

Ainda que os impactos das mudanças climáticas sejam variáveis entre ecossistemas e regiões, é importante ressaltar que eles poderão intensificar outros tipos de estresse, agravando as conseqüências gerais. Portanto, a sobrevivência destes ecossistemas em um cenário de mudança climática dependerá principalmente de sua habilidade de adaptação, mas também quanto às atividades humanas estão prejudicando esta capacidade (Scavia et al. 2002). Considerando os diversos serviços ambientais que os manguezais proporcionam aos ecossistemas adjacentes e as populações costeiras, é crucial fazer uma avaliação das áreas mais sensíveis aos possíveis impactos das mudanças climáticas e uma estimativa do impacto dos serviços ambientais sobre a qualidade de vida da população da zona costeira do Brasil.